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Post Quer..s Baga (Post Quercus Baga) de Filipa Pato e William Wouters

Writer: Francisco ByMyGlass
Francisco ByMyGlass
9 minutes ago
3 min read



Há vinhos que entram na nossa vida e ficam.

Não necessariamente porque são os melhores que alguma vez bebemos, mas ficam porque aparecem no momento certo ou porque nos mostram qualquer coisa que ainda não sabíamos que procurávamos.

O Post Quercus, da Filipa Pato e do William Wouters, é um desses vinhos para mim.

 

Creio que o provei pela primeira vez há mais de 10 anos. Já passou tempo suficiente para ter bebido muitas garrafas, mudado de opinião sobre outras tantas e aprendido que aquilo que hoje nos entusiasma nem sempre sobrevive ao copo seguinte.

Mas este sobreviveu e há uma razão muito simples: foi um dos vinhos que me fez apaixonar pela Baga.

 

A Filipa Pato dispensa apresentações. Nasceu dentro do mundo vinho, mas escolheu construir o seu próprio caminho, a partir de uma ideia desta área que muito me fascina: o que acontece quando deixamos uma região e uma casta serem exactamente aquilo que são?

 

Depois de estudar engenharia química e consolidar os seus conhecimentos por vários lugares do mundo, regressou à Bairrada e começou a desenvolver o seu projecto. A partir daí, foi aprofundando uma ideia que hoje quase parece óbvia, mas que há duas décadas estava longe de ser consensual: trabalhar a vinha de forma cada vez mais próxima da agricultura biológica e biodinâmica e fazer vinhos com menos intervenção.

Mais tarde, William juntou-se a si e hoje, o projecto Filipa Pato & William Wouters tem certificação biodinâmica Demeter, a certificação com padrões internacionais mais exigentes no que toca a agricultura biodinâmica.

 

Mas não é o certificado que torna os vinhos interessantes. É o que está por trás dele: a vontade de perceber melhor a vinha, de olhar para o solo, para a biodiversidade, para as castas e para o território, antes de pensar em como tornar o vinho mais “bonito”.

 

E depois há a Baga.

Ah, a Baga.

Uma casta que durante muito tempo pareceu precisar de ser domesticada para ser aceite. Muito tanino, muita acidez, alguma austeridade e aquela capacidade maravilhosa de nos perguntar, logo no primeiro gole, se temos realmente tempo para isto.

 

Mas o Post Quercus troca-nos as voltas desta ideia pré-concebida.

É 100% Baga e fermenta e estagia em ânfora de barro - daí o nome Post Quercus, que significa depois do carvalho. Logo aí, não é um vinho que precise da madeira para ganhar importância.

 

 

Depois há fruta vermelha, especiarias, frescura, ervas, terra. Há tanino, claro - estamos a falar de Baga, não de sumo de morango - mas há uma leveza e uma fluidez que tornam o vinho perigosamente fácil de beber, porque a garrafa começa a desaparecer antes de termos percebido muito bem o que aconteceu.

E isso, para mim, como já disse por aqui algumas vezes, é uma das maiores virtudes de um vinho.

 

Gosto da forma como a talha funciona aqui - não tenta maquilhar a Baga e dá-lhe espaço, a fruta aparece, a acidez estica o vinho, o tanino dá-lhe coluna vertebral e o conjunto mantém uma espécie de energia inquieta.

É diferente.

 

Mas não é diferente para chamar atenção, é diferente porque faz sentido.

 

E talvez seja essa a parte que mais admiro no trabalho da Filipa e do William - a procura de uma identidade que não precisa de gritar “natural”, “biodinâmico” ou “ancestral” a cada gole.

 

Volto ao Post Quercus há muitos anos porque continuo a encontrar nele qualquer coisa que me fez apaixonar pela Baga quando ainda não sabia explicar muito bem porquê.

Hoje sei melhor, mas talvez goste precisamente de não saber tudo.

Porque há vinhos que nos ensinam e há vinhos que nos fazem querer continuar a aprender.

O Post Quercus faz-me as duas coisas por mais anos que passem.


Com o desejo de bons vinhos,

FFG 

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