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António Madeira Vinhas Velhas Branco: o Dão que cabe num copo

  • Writer: Francisco ByMyGlass
    Francisco ByMyGlass
  • 11 hours ago
  • 3 min read



Há vinhos de que gostamos e há vinhos que, de alguma forma, ficam connosco. O Vinhas Velhas Branco, do António Madeira, é, para mim, um desses vinhos.


O António tem um projeto muito especial, que tive a oportunidade de conhecer pessoalmente o ano passado, dedicado sobretudo à recuperação de vinhas velhas, na zona de Santa Marinha, no concelho de Seia. São vinhas plantadas em altitude, em solos de granito e xisto, onde os dias quentes e as noites mais frescas ajudam a conservar a frescura natural das uvas. E isso sente-se nos vinhos.


Na vinha, o António procura interferir o mínimo possível e evita herbicidas e fertilizantes químicos, trabalhando muitas vezes manualmente e até com a ajuda de cavalos nas vinhas mais antigas. Na adega, segue a mesma filosofia: deixar que as uvas e o lugar tenham uma palavra tão importante quanto possível no resultado final.


O Vinhas Velhas Branco é um excelente exemplo disso. Feito a partir de vinhas entre os 50 e os 130 anos, junta várias castas tradicionais que encontramos no Dão, como Encruzado, Bical, Malvasia Fina, Cerceal, Síria e Fernão Pires. Mas este vinho é muito mais do que apenas as castas de que é feito.





É um branco que, à primeira vista, pode parecer discreto. Não é daqueles vinhos que entram no copo e imediatamente gritam por atenção. Pelo contrário: precisa de algum tempo. Gosto de o deixar respirar e voltar a ele ao longo da refeição, porque vai mostrando coisas diferentes.


Há fruta branca, maçã e pera, alguma fruta de caroço, mas seria demasiado fácil ficar por aqui. O que me interessa verdadeiramente neste vinho está noutro lugar. Está naquela frescura que nos faz salivar e numa mineralidade quase desconcertante. Pedra molhada, granito frio, giz, terra húmida. Não sei explicar exatamente onde termina a uva e começa o lugar, mas é precisamente aí que o vinho se torna interessante. Depois, com tempo, aparecem frutos secos, chá e outras pequenas nuances que não estavam lá quando chegámos. Ou talvez estivessem. Talvez fossemos nós que ainda não estávamos preparados para as ouvir. E é aqui que este branco ganha outra dimensão: não quer impressionar-nos à primeira. Quer que voltemos ao copo.


Na boca é onde, para mim, o vinho ganha outra dimensão. Tem estrutura e volume, mas não perde a elegância. A acidez dá-lhe energia, há uma textura quase salgada e um final muito seco e persistente. É um vinho que não precisa de ser exuberante para se fazer notar. Um vinho para beber com tempo, de preferência à mesa, e perceber como vai mudando no copo. Tem profundidade, mas também frescura; tem força, mas não é pesado. E, acima de tudo, tem identidade.





Gosto de vinhos de pequenas produções e de produtores que trabalham com uma ligação verdadeira ao lugar. E, quando as vinhas têm décadas de história, estamos a beber muito mais do que simplesmente uvas fermentadas. Estamos a beber uma paisagem, uma forma de trabalhar e uma história que alguém decidiu partilhar.

É isso que vejo no trabalho do António Madeira.


Mais do que fazer vinho, está a recuperar uma parte do Dão que podia facilmente desaparecer. Influenciado ou não pela minha ligação a esta zona do país, este Vinhas Velhas Branco é, para mim, uma das melhores formas de representar este pedaço de território dentro de um copo.


Um vinho a que volto muitas vezes e que continuo a descobrir como se fosse a primeira. Fica a sugestão para quem ainda não conhece.


Com o desejo de bons vinhos,

FFG

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