Alfrocheiro. A casta portuguesa que raramente grita, mas quase sempre tem algo para dizer.
Já dizia o ditado português: a galinha da vizinha é sempre melhor que a minha.
Pinot Noir, Nebbiolo, Syrah, Sangiovese. Temos uma enorme facilidade em apaixonarmo-nos pelo que vem de mais longe e, facilmente, ignoramos o que temos debaixo do nosso nariz. Como é o caso do Alfrocheiro.
Não é a casta mais plantada, nem a mais famosa. Não é a que aparece mais vezes nas cartas de vinho, nem a que domina as conversas entre aficionados.
Aliás, raramente é protagonista.
Mas o Alfrocheiro pertence a uma categoria muito particular de castas: aquelas que não precisam de fazer barulho para mostrar valor.

Durante muito tempo, viveu discretamente em lotes, misturado com outras variedades, a desempenhar um papel secundário: acrescentar cor, estrutura, fruta ou elegância.
Sem exigir holofotes, sem pedir reconhecimento, sem construir uma narrativa à sua volta.
Era quase como aquele músico extraordinário que passa anos a tocar na banda de outros artistas, sem nunca gravar um álbum a solo.
Quem conhece, sabe. Quem não conhece, nem repara.
Mas basta prestar atenção para perceber que sempre esteve lá.
A sua origem continua envolta em algum mistério. Sabe-se que é uma casta portuguesa, profundamente ligada ao centro do país, particularmente ao Dão, mas que também se adaptou a outras regiões.
Essa capacidade de adaptação talvez seja uma das suas maiores virtudes, porque o Alfrocheiro raramente tenta dominar - procura integrar-se, interpretar o lugar, expressar o contexto. E talvez por isso seja uma casta tão interessante para quem gosta de vinho.
Não porque oferece respostas simples, mas porque oferece nuance.
E convenhamos: a nuance está cada vez mais rara, num mundo que parece exprimir-se cada vez mais através de extremos.
Quando falamos de Alfrocheiro, falamos normalmente de vinhos aromáticos, expressivos, com fruta vibrante, frequentemente marcados por notas florais, frutos vermelhos e uma frescura muito característica.
Mas reduzir esta casta a uma lista de aromas seria profundamente injusto, quando o seu verdadeiro encanto está no equilíbrio.
O Alfrocheiro tem uma leveza natural, uma elegância, uma capacidade de ser sério sem se tornar pesado e de ser complexo sem se tornar cansativo. É uma das castas portuguesas que melhor compreende algo que muita gente continua a ignorar: potência e qualidade não são a mesma coisa.
Durante anos, no que toca a vinho, pareceu acreditar-se que mais cor, mais extração, mais álcool ou mais madeira significavam mais qualidade.
Durante muito tempo procuraram-se vinhos maiores, mais concentrados, mais intensos, mais tudo.
Felizmente, o Alfrocheiro nunca recebeu esse memorando e continuou a produzir vinhos que muitas vezes privilegiam a precisão em vez da força, a frescura em vez da exuberância e a elegância em vez da musculação excessiva.
E talvez seja também precisamente por isso que a casta parece cada vez mais relevante.
Porque os consumidores também mudaram e a tendência é crescente na procura por factores como equilíbrio, identidade e bebibilidade - esta última, um neologismo que muitos profissionais continuam a evitar, mas no qual os consumidores parecem, cada vez mais, rever-se - que significa, em bom português, a vontade de servir mais um copo.
E é aqui que o Alfrocheiro brilha: porque raramente cansa, raramente se impõe e raramente domina a mesa - prefere acompanhar, conversar, participar.

Neste seguimento, outra característica que torna esta casta particularmente interessante é a sua enorme versatilidade gastronómica. Num mundo onde passamos demasiado tempo a discutir harmonizações impossíveis, o Alfrocheiro oferece uma solução simples: funciona.
Com cozinha portuguesa, com pratos de carne, com aves, com preparações mais delicadas, em contextos descontraídos, em refeições mais sérias, simplesmente, funciona.
Nem sempre será a resposta perfeita, mas raramente será uma resposta errada. E isso tem um grande valor gastronómico, sobretudo numa época em que tantas vezes confundimos complexidade com qualidade.
Depois de tudo o que falámos até aqui, não deixa de ser engraçada a lição subtil que o Alfrocheiro personifica sobre nós - e não apenas sobre o vinho.
Passamos o tempo à procura da próxima grande descoberta, da próxima tendência, da próxima região que todos vão querer conhecer. Continuamos a cair na (des)ilusão de que o que faz mais barulho é aquilo que tem mais para oferecer, quando algumas das respostas continuam, pacientemente, à nossa frente.
O Alfrocheiro não é uma novidade, uma tendência ou uma moda. As modas passam, as tendências mudam e as preferências também.
Já esta casta permanece. Continua a produzir bons vinhos, a acompanhar refeições, a criar memórias. Continua a surpreender quem lhe presta atenção.
Às vezes, as melhores respostas estão apenas à espera de que alguém pare um instante para as ouvir. E o Alfrocheiro tem vindo a dizer coisas bastante interessantes há já muito tempo.
Com o desejo de bons vinhos,
FFG




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