Poças Fora da Série: cem anos de história a tirar-nos do caminho mais óbvio
Há famílias que fazem vinho e depois há famílias que, após mais de um século a fazê-lo, continuam com vontade de brincar com ele.
Em 1918, Manuel Domingues Poças Júnior fundou, no Porto, uma empresa que viria a tornar-se uma das poucas casas portuguesas de Vinho do Porto que ainda hoje permanece nas mãos da família fundadora. Mais de cem anos depois, a Poças continua ligada ao Douro, ao Vinho do Porto e à produção de vinhos DOC Douro.
É uma história longa - e histórias longas vêm com tradições, que facilmente se tornam em desculpas para não evoluir. Na Poças aconteceu precisamente o contrário.
Em 2019, surgiu a Fora da Série e o nome dificilmente poderia ser mais feliz.

A ideia nasceu de experiências que, até então, eram partilhadas quase em segredo entre família e amigos: pequenas produções, experiências da equipa de enologia, técnicas e objectos do passado revisitados - ideias que não tinham necessariamente de caber naquilo que se esperava de uma casa tradicional do Douro.
Mas desengane-se quem pensa que a Fora da Série é apenas uma colecção de vinhos diferentes porque é muito mais do que isso. É um espaço onde a curiosidade pode mandar mais do que a regra: para experimentar; para testar; para recuperar; para misturar. Para perceber até onde se pode ir quando não há obrigação de seguir exactamente o caminho habitual. Para sair da linha.
A própria Poças descreve o projecto como uma reinvenção de técnicas e objectos do passado, com uma dimensão experimental e artesanal, em edições limitadas.
Uma espécie de laboratório dentro da própria casa.
Obviamente que seguindo esse fio condutor, há uma palavra que aparece várias vezes quando falamos desta gama - blend.
E não é por acaso.
A relação da família Poças com o Vinho do Porto tornou natural uma das artes mais fascinantes - e menos compreendidas - do mundo do vinho: juntar vinhos diferentes para criar algo que não existia antes.
É uma espécie de alquimia que não se trata simplesmente de misturar vinhos.
É escolher. Provar. Esperar. Voltar a provar.
Perceber que um vinho pode dar estrutura, outro dar frescura, outro dar profundidade, outro dar textura. E perceber também quando parar.
É precisamente essa arte que está por trás de dois dos vinhos que a Poças gentilmente me enviou e que, tal como os seus dois nomes pouco convencionais já avisavam, neste tom de trocadilho cumpriram exactamente aquilo que prometeram: o Uppercut e o Dogleg.
Porque o vinho não tem que falar sempre uma linguagem séria.

Comecemos pelo tinto.
O Uppercut é um DOC Douro construído a partir de lotes de diferentes anos, provenientes de vinhas velhas do Baixo Corgo, Cima Corgo e Douro Superior.
Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Alicante Bouschet e Tinta Barroca.
Vinhas entre os 20 e os 60 anos, plantadas em solos de xisto. As uvas são seleccionadas na vinha e colhidas manualmente, a fermentação acontece em lagares e o vinho estagia em barricas usadas de carvalho francês de 300 litros.
E o nome não podia ser mais bem escolhido.
Uppercut é um golpe de boxe, que pode aparecer escondido, até discreto, mas que, quando chega, chega com força.
É difícil fugir ao cliché da expressão “assenta-lhe que nem uma luva”. O Uppercut não entra na sala aos gritos. Começa elegante, quase educado.
Fruta preta, cereja, alguma coisa de bosque e uma frescura que impede o Douro de ficar pesado. Depois começa a ganhar volume.
A madeira está lá, mas não vem com aquele megafone que, às vezes, transforma um vinho numa carpintaria com álcool. Está mais para segundo plano, a dar estrutura sem roubar o protagonismo à fruta.
E depois há a textura. Sedosa, cheia, mas sem ficar gorda.
É aquele equilíbrio perigoso que quando damos por isso, já estamos a servir outro copo.
Um uppercut, portanto. Não o vemos necessariamente chegar. Mas sentimos quando chega.

Depois vem o branco.
E, se for possível, talvez aqui a coisa fique ainda mais interessante.
O Dogleg nasce também de um blend de lotes de diferentes anos, provenientes do Baixo Corgo e do Douro Superior.
Arinto, Códega do Larinho, Rabigato, Gouveio, Viosinho, Malvasia Fina e Moscatel Galego Branco.
Sete castas, de diferentes parcelas e de diferentes anos. Uma espécie de pequena equipa de futebol onde ninguém está ali por acaso.
A vinificação combina inox e barrica usada, com estágio em barricas usadas de carvalho francês de 300 litros e bâtonnage sobre borras finas.
Mas fichas técnicas à parte, o Dogleg joga outro jogo. Se o Uppercut nos acerta, o Dogleg faz-nos virar a cabeça.
É um branco que começa por parecer muito simpático - fruta, citrinos, frescura - mas depois começa a mostrar outras coisas. Há fruta amarela, alguma coisa ligeiramente melada, notas que lembram manteiga e frutos secos.
E depois aparece um lado mais sério. Mais complexo. Mais difícil de apanhar.
É daqueles vinhos que nos fazem voltar ao copo, não porque tenhamos percebido tudo, mas precisamente pelo contrário – ainda há muito por compreender. E isso é bom, muito bom.
Há vinhos que explicam a piada imediatamente e há outros que nos obrigam a ficar mais cinco minutos à mesa. O Dogleg é desses.
Tal como no golfe, a curva faz parte do jogo. E talvez seja por isso que o nome lhe assenta tão bem: quando pensamos que sabemos para onde o vinho vai, ele muda ligeiramente de direcção.
Na minha opinião, a Poças acertou em cheio e trouxe um novo significado a estar “Fora da Série”: não é fazer diferente apenas para ser diferente. É conseguir pegar em cem anos de história e conhecimentos e usá-los como essência para escrever mais cem anos, sem se tornar prisioneiro do passado.
O Uppercut e o Dogleg são dois admiráveis exemplos dessa liberdade.
Dois vinhos sem ano, construídos através de lotes de diferentes colheitas e da arte do blend que André Pimentel Barbosa aprofundou através da cultura do Vinho do Porto.
Um golpe que não vemos chegar e uma curva que nos esconde o que vem depois.
E talvez seja exactamente isso que um vinho deve fazer de vez em quando - tirar-nos do caminho mais óbvio.
Com o desejo de bons vinhos,
FFG




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