E se deixássemos de julgar o vinho pela embalagem?
- Francisco ByMyGlass
- 51 minutes ago
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Há uma imagem que continua profundamente enraizada no imaginário de muitos consumidores de vinho. A garrafa pesada. O rótulo elegante. A rolha de cortiça. O serviço cuidadoso. O copo certo. A ocasião certa. O discurso certo.
Durante décadas, fomos ensinados a associar qualidade a um conjunto de códigos visuais e culturais que pouco tinham a ver com aquilo que realmente está dentro da embalagem.
E talvez seja por isso que o recente lançamento de um Nat'Cool Clarete em Bag-in-Box, da Niepoort, esteja a provocar reações tão inesperadas.
Porque o vinho, na verdade, não está a desafiar apenas um formato. Está a desafiar uma forma de pensar. E isso é sempre mais desconfortável.

Perplexidade é quase sempre a primeira reação. Um vinho natural. Um Clarete. Em Bag-in-Box. Mas isto é para levar a sério?
Curiosamente, quando se abre uma garrafa pesada com um rótulo bonito e a qualidade do vinho no interior não corresponde às expectativas, ninguém faz essa pergunta.
Mas basta trocar a embalagem e, de repente, o julgamento aparece. Como se o formato tivesse mais importância do que o conteúdo. Como se a qualidade de um vinho fosse definida por um concurso de beleza.
Desde sempre associámos a qualidade do vinho à forma como é apresentado e o Bag-in-Box sempre foi o porta-estandarte desse estigma.
Foi durante anos associado a vinho barato, a consumo descomprometido, a algo que se comprava por conveniência e não por prazer.
E sejamos honestos, em muitos casos essa reputação não apareceu por acaso.
Mas o mundo mudou e os consumidores também.
Por isso, não podemos continuar a lidar com o vinho como se ainda estivéssemos nos anos 90.
Cada vez falamos mais da necessidade de aproximar o vinho das pessoas, da quebra de consumo e de qual será a melhor maneira de chegar a gerações mais jovens.
Mas quando alguém tenta fazer exatamente isso, o setor fica nervoso. Talvez porque uma parte do mundo do vinho continua a gostar mais da ideia de exclusividade do que da ideia de comunidade.
O movimento Nat'Cool sempre foi o oposto desse pretensiosismo.
A proposta sempre foi outra. Produtos leves, descomplicados, que privilegiam o prazer e a partilha em vez das aparências.
E isso, para alguns, continua a ser quase revolucionário porque existe a ideia de que quanto mais complexo for o discurso, mais importante será o vinho.
Quando muitas vezes acontece precisamente o contrário.
Os melhores vinhos que já bebi não foram necessariamente aqueles que me obrigaram a tirar apontamentos, foram aqueles que me fizeram querer servir outro copo e partilhar a garrafa.
Mas para mim, o mais interessante neste lançamento não é ser um vinho natural numa Bag-in-Box – é o que nos diz sobre o momento atual do vinho.

Durante décadas, o vinho viveu apoiado a uma ideia de ocasião. Abríamos uma garrafa porque existia um motivo: um jantar, uma data especial, uma conquista.
Mas as mentalidades mudaram e as pessoas deixaram de esperar pelo momento ideal para aproveitar pequenos prazeres. Os consumidores valorizam cada vez mais aquilo que está disponível no imediato e que faz parte do quotidiano, aquilo que não exige preparação emocional.
E talvez o vinho tenha demorado demasiado tempo a perceber isso, porque enquanto o setor insistia em transformar o vinho numa experiência quase cerimonial, outras bebidas ocuparam espaço: cocktails, cervejas artesanais, bebidas prontas a consumir e novos formatos.
O vinho foi perdendo presença, não porque perdeu qualidade, mas porque se tornou pouco prático para alguns momentos.
Por isso, este Nat'Cool Clarete em Bag-in-Box não só vem desafiar a maneira como vemos o formato em que o vinho chega até nós, mas traz uma pergunta pertinente para cima da mesa: será que o vinho precisa de ser tratado como algo especial para continuar a ser valorizado ou será que a sua verdadeira força sempre esteve na capacidade de fazer parte do quotidiano das pessoas?
Afinal de contas, esta era uma bebida do dia-a-dia que apenas recentemente passou a ser tratada como um objeto de contemplação. Talvez esteja na altura de encontrar um ponto de equilíbrio entre estes dois extremos.
Não digo com isto que todos os vinhos devam estar em Bag-in-Box, nem que todas as garrafas devam abandonar a sua identidade. Longe disso.
Mas se a diversidade é uma das maiores riquezas do vinho, este conceito também poderia abranger os seus diferentes formatos.
Assim, conseguiria falar diferentes linguagens, para diferentes consumidores, em diferentes momentos.
E, como tenho insistido tanto nos últimos tempos, preocupemo-nos mais com o prazer que nos dá o que está dentro do copo do que com o que a imagem transmite.
O maior mérito deste Nat'Cool Clarete em Bag-in-Box tem sido precisamente esse, fazer-nos olhar menos para os limites da caixa e mais para o vinho.
Porque a imagem tem a sua importância, mas o vinho, esse, deveria ser sempre o ponto de partida.
Com o desejo de bons vinhos,
FFG




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